script async src="https://pagead2.googlesyndication.com/pagead/js/adsbygoogle.js?client=ca-pub-3525825446826650" crossorigin="anonymous"> Opinião - luso.eu | Jornal de Notícias das Comunidades Portuguesas
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Foto: Imagem ilustração gerada por IA


Há uma conta que nenhum banco imprime. Chega todos os meses sem envelope nem remetente, e paga-se sempre a pronto, numa moeda que não se troca em nenhuma casa de câmbio do mundo.

Vim porque aqui me deram o que lá me iam adiando. Um ordenado que não se acaba a meio do mês, um projecto que é meu, uma secretária com o meu nome escrito por inteiro, gente que me diz que sou bom naquilo que faço e me paga como quem acredita nisso. Faço o que sempre quis fazer. Digo-o assim, sem rodeios, porque é verdade e porque seria desonesto fingir o contrário. Não fugi de nada. Vim atrás de alguma coisa — e encontrei-a.

Mas ninguém me avisou que a distância também se mede em domingos.

Lá, a esta hora, a minha mãe está a pôr a mesa para menos um. Tira o prato do armário por hábito e volta a guardá-lo devagar, como quem arruma uma pergunta que ninguém responde. O meu pai finge que não repara. Há anos que finge, e há anos que eu sei.

Aqui é Outubro e chove de lado, uma chuva fina e bem-educada que não se parece nada com a de lá, grossa, impaciente, a cheirar a terra molhada e a castanhas assadas na esquina. Aqui as castanhas vêm em saquinhos de plástico, frias, e não queimam os dedos. Comprei-as uma vez. Não as acabei.

Perde-se tanto, todos os dias, e perde-se em silêncio. Não há estrondo, não há despedida, não há um momento a que se possa apontar o dedo e dizer: foi aqui. Perde-se aos bocadinhos, como a maré que leva a areia sem que ninguém dê por isso.

Perdi o casamento do meu melhor amigo, que vi num telemóvel apoiado numa caneca, com o som três segundos atrasado em relação aos sorrisos. Perdi o baptizado do meu afilhado, que já me trata por «tio de longe», como se a distância fosse um apelido. Perdi a última vez que o meu avô se lembrou do meu nome sem hesitar — e só soube que tinha sido a última muito depois, ao telefone, numa terça-feira qualquer, entre duas reuniões.

Perdi o café da esquina, que mudou de dono sem que ninguém me dissesse nada, porque para essas coisas já não sou de lá. Perdi as piadas novas dos meus amigos; continuo a rir-me delas, mas chego sempre como quem entra num filme a meio e tem vergonha de perguntar quem é aquela personagem.

E perdi, sobretudo, o direito ao acaso. Lá, a vida acontecia-me: um encontro na rua, um jantar decidido à última hora, uma tarde inteira à beira-rio sem motivo nenhum. Aqui, quem eu amo tem de ser marcado com antecedência, entre fusos horários, num ecrã que congela precisamente quando a minha mãe se ri.

Falo bem a língua deste país. Escrevo relatórios, discuto prazos, faço-me entender. Mas é na minha que sonho, é na minha que me zango, é na minha que conto as coisas importantes a quem não está. Há palavras que não atravessam a fronteira: chego a uma delas e fico parado, porque do outro lado não há nada que lhe corresponda. A saudade é a primeira e a última.

O aeroporto passou a ser a minha casa intermédia. Conheço-lhe os cheiros, as filas, os cafés caros. Vou com a mala cheia de roupa e volto com ela cheia de queijo, de chouriço, da compota de abóbora da minha tia, embrulhada em jornal como se fosse frágil. E é frágil. Aquilo não é comida: é afecto em contrabando, a tentar passar a alfândega sem ser declarado.

Há uma coisa que só se percebe ao fim de algum tempo: deixamos de ser inteiramente de lá sem nunca chegarmos a ser inteiramente daqui. Lá, dizem-me que já falo com sotaque. Aqui, perguntam-me de onde sou antes de me perguntarem o nome. Vive-se num intervalo, numa espécie de corredor entre dois países, onde há sempre uma porta aberta e nunca uma casa.

O extracto bancário diz-me tudo o que ganhei. Está tudo lá, alinhado, exacto, a crescer devagar todos os meses. Mas não tem uma linha para o abraço que não dei. Não tem uma coluna para os Natais encurtados, para os aniversários cantados por videochamada, para a voz da minha mãe a dizer «está tudo bem, não te preocupes» daquela maneira que quer dizer exactamente o contrário. O salário cai na conta a dia vinte e cinco. A saudade cai todos os dias, sem dia certo, e nunca se engana no endereço.

Não escrevo isto para me queixar. Escolhi, e provavelmente voltaria a escolher. É isso, talvez, o que mais custa: não é a distância, é a escolha que se renova todas as manhãs, em silêncio, quando o despertador toca e eu fico.

Ganho mais, é verdade. Faço o que amo, é verdade. Mas ninguém me paga as horas em que a minha mãe põe a mesa para menos um.


 



 

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