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Imagem criada com IA baseada em factos reais.


De protesto estudantil a violência sem precedentes: professores atacados, bombeiros agredidos, autocarros e escolas incendiados. O que está a acontecer em França?


O que começou como um movimento contra a falta de professores e as más condições nas escolas está a transformar-se, em várias cidades francesas, numa crise marcada por incêndios, agressões e destruição de património público.

A contestação estudantil que se espalhou por França ultrapassou, em vários locais, os limites de um protesto pacífico. Mais de 1.000 liceus chegaram a ser afetados pela mobilização e, só num dia, foram registadas cerca de 1.950 detenções. O próprio Governo francês classificou a situação como uma passagem para a “violência urbana”.

Entre os episódios mais chocantes está o ataque a um professor em La Ciotat: Thierry Laurent, professor de Física e Química, foi regado com gasolina durante uma manifestação. Segundo o ministro da Educação, até 4 de outubro, 78 profissionais da Educação Nacional tinham ficado feridos.

Em Marselha, a violência atingiu também quem estava a tentar apagar os incêndios. Bombeiros foram agredidos enquanto intervinham junto de um liceu e um dos seus veículos foi incendiado. Um marin-pompier sofreu uma fratura no rosto depois de ser atingido por um projétil. Um bombeiro com a roupa em chamas foi filmado por um grande grupo de jovens que assistia como se tratara de um espetáculo.

Em Clermont-Ferrand, o diretor de um liceu ficou ferido na cabeça depois de ser atingido por um morteiro de fogo de artifício. As autoridades indicaram que os autores seriam indivíduos exteriores ao estabelecimento, alguns mascarados e encapuçados.

Em Nantes, o recente e moderno liceu Nelson Mandela, com capacidade para cerca de 1.700 alunos, teve o hall de entrada destruído por um incêndio. A direção afirmou que o fogo foi voluntário e o estabelecimento ficou encerrado durante semanas. As autoridades ainda não identificaram os autores.

Também houve destruição de mobiliário urbano, destruição e saque de lojas e interrupções de transportes. Em Lille, foram incendiadas barricadas e quebrados abrigos de autocarro; em várias cidades, os transportes públicos tiveram de ser interrompidos devido aos violentos confrontos. Violencia sem precedentes que atingiu ainda jornalistas e cidadãos comuns que continuam a ser agredidos nas ruas.

Um problema político? A analista Teresa Nogueira Pinto afirma que existe um problema político que não pode ser confundido com as reivindicações legítimas dos estudantes. A falta de professores, as turmas sobrelotadas e as infraestruturas degradadas são problemas reais e estão na origem da mobilização. Mas essas reivindicações não explicam atos como regar professores com gasolina, atacar bombeiros, incendiar veículos de emergência ou destruir escolas públicas, pois, segundo a mesma, se o problema é a falta de professores, infraestruturas e serviços, não faz qualquer sentido que os estejam a destruir. A analista afirma que a situação é uma irresponsabilidade dos políticos que acharam que se podia integrar toda a gente no nada, sem cultura, sem método.

O próprio movimento estudantil começa a ser dividido entre aqueles que protestam por melhores condições de ensino e grupos que procuram o confronto. O Le Monde relata a presença, em vários locais, de jovens mascarados e de indivíduos que nem sequer pertenciam aos liceus nos protestos. Cidadãos ficaram barricados no metro de Paris, enquanto centenas de jovens lançavam projéteis em chamas, contentores e outros objetos pelas escadas do metro. Queimaram a cara de uma mulher com chamas. Em certas zonas, a polícia perde controlo sobre os numerosos agressores que destroem veículos do estado e agridem os próprios agentes.

O paradoxo é difícil de ignorar: protesta-se contra a falta de investimento na escola e, simultaneamente, destrói-se a própria escola.

A questão que agora se coloca em França já não é apenas como responder à falta de professores ou melhorar as infraestruturas. É também saber quem está a conduzir parte desta violência, com que objetivos e até onde pode chegar uma contestação que começou dentro das escolas e acabou por agredir professores, jornalistas, polícias, bombeiros, transportes e património público.

E, enquanto o debate político se intensifica e estudantes continuam a exigir melhores condições, a violência continua e alastra-se com escolas em chamas, veículos destruídos e pelas agressões nas ruas. Estará França à beira de uma guerra civil?